segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O problema dos medicamentos a crédito

Os medicamentos são um "Ovo de Colombo": custa muito a descobrir uma molécula com efeitos terapêuticos mas, uma vez descoberta, custa pouco produzir o medicamento.
Por exemplo, supondo que o preço final de venda do medicamento da SIDA é 100€/u. então, 75€/u. vão para o laboratório que descobriu o medicamento, 24€/u. vão para a margem da comercialização (distribuidor e farmácia) e 1€/u. vai para a produção.

Fig. 1 - A suspensão dos pagamento aos fornecedores é o precursor da bancarrota

A concorrência
Se não houvesse patentes que protegessem o investimento feito na investigação então, qualquer um poderia copiar o medicamento. É o que acontece com os genéricos. Desta forma o preço do medicamento ficaria reduzido a 1.25€/u.. Aparentemente seria positivo mas acabava a investigação em novos medicamentos.
Para haver investigação de novos medicamentos a sua descoberta tem que ser lucrativa. Sem patentes, nunca o seria.
Por exemplo, as doenças tropicais, por ocorrem principalmente em países pobres, não têm potencial comercial pelo que a  investigação de novos medicamentos tem que ser subsidiada pela ONU.

A venda a crédito
A estratégia que maximiza o lucro do laboratório é afixar um preço diferente para cada país. Assim, deveria cobrar um preço elevado nos países ricos e um preço baixo nos países pobres que, de outra forma , não compraria o medicamento. Chama-se a isto a "divisão do mercado".
Por exemplo, vendendo o medicamento da SIDA nos países da OCDE a 76€/u. (+24€ para a comercialização), nos países intermédios a 36€/u.(+14€ para a comercialização) e nos países pobres a 5€/u. (+2€ para a comercialização).
Mas é proibido pelo Organização Mundial do Comercio vender a preços diferentes em regiões diferentes. A literatura diz que isso uma prática anti-concorrencial.
Então, uma alternativa permitida é vender a crédito para os países mais pobres sendo os juros imputados ao vendedor.

O preço real de venda
Como os laboratórios não são instituições de crédito, uma vez efectuada a venda, o activo é transaccionado à taxa de juro do mercado.
Por exemplo, o laboratório vende a 100€/u. para a República Centro Africana que só vai pagar daqui a 10 anos. Vamos supor uma taxa de juro de mercado de 35%/ano então, o laboratório vai vender essa divida por 5€ = (1+35%)^-10. Apesar de formalmente vender por 100€, de facto está a vender por 5€.
A República Centro Africana arranja países doadores que comprem os activos ao laboratório pelos 5€/u.
O mais interessante é que o mercado diz automaticamente na taxa de juro quais os países financeiramente mais frágeis e que por isso incorpora automaticamente maior desconto para os mais frágeis.

Esta também é uma das razões para os países venderem bens e serviços que têm no preço final  uma componente fixa muito elevada (por exemplo, aviões comerciais, reactores nucleares, submarinos, etc.): é um desconto no preço real sem o ser no preço nominal.

O problema grego e português.
O medicamento é vendido a 100€/u. dos quais 25€/u. são para a comercialização.
Em Portugal a farmácia recebe 100€/u. a um ano. Então, para uma taxa de juro de 17%/ano (que é quanto está o Risco da República), vai ser equivalente a vender a pronto por 85.5€/u. A farmácia retira  25€/u. e entrega 60.5€/u ao laboratório que paga 1€/u. pela produção. OK, o laboratório teve uma margem de 59.5€/u.
Agora vejamos a Grécia que está a pagar os medicamentos com 3 anos de atraso e com taxas de juro da república na ordem dos 65%/ano.
A farmácia grega vendeu por 100€ mas é equivalente a receber a pronto 22.26€ =  (1+65%)^-3. Descontando os 25€/u. para a comercialização, não fica nada para o laboratório que não consegue pagar os custos de produção.
Naturalmente, o laboratório recusa-se a vender pois, no mínimo dos mínimos, tinha que receber 1€/u.
Acresce ainda o risco de os hospitais gregos começarem a vender os medicamentos, que não pagam, para países terceiros prejudicando as vendas do laboratório.

Será um problema muito grave?
Gravíssimo.
Ai mas as pessoas têm direito a um Serviço Nacional de Saúde universal e de qualidade, blá blá blá blá.
Mas porque será que nos países com menor rendimento as pessoas duram menos tempo?

Fig. 1 - Relação entre esperança de vida à nascença e PIB per capital, ppc (fonte: Banco Mundial)

São os direitos abstratos que depois não há como fazer cumprir.
É como o Alberto João que pensa ser justificação para a divida colossal ter feito muitas coisas.
Primeiro, são obras de pequena utilidade. Se assim não fosse, as obras geravam receitas capazes de amortizar o investimento não sendo preciso carregar os cubanos do cont'nente.
Segundo, se os Madeirenses têm direito a viver bem, também  os de Arouca e os de Marrocos e não me consta que façam lá obras escondidas e depois nos venham apresentar a conta.

Escolhe outro, amigo.
Ser pobre custa muito mas quem não pode, não pode. Não vale a pena berrar.

Pedro Cosme Costa Vieira



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